A SCML é a mais antiga. Qual delas?

 



Lisboa e Lagos partilham várias afinidades. Além da paisagem atlântica e do ocasional excesso de calçada, ambas foram duramente atingidas pelo terramoto de 1755, episódio de impacto demolidor tanto na arquitectura como na memória colectiva. Mas há outro elemento comum, mais discreto, mais simbólico e, talvez por isso, mais pernicioso: a figura de Frei Miguel Contreiras.

À superfície, trata-se de um frade bondoso do século XV, espanhol de nascimento e trinitário de ofício, que andava por Lisboa em companhia de um burro e de um anão, pedindo esmolas para os pobres. Terá sido prior do Convento da Trindade, falecido em 1505, e escolhido pela Providência para influenciar D. Leonor, a rainha consorte de D. João II, a fundar a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Nada mau para um simples mendicante. Foi inclusive promovido, postumamente, a primeiro provedor da instituição e representado em bandeiras, telas e histórias comoventes. A sua memória, dizem, sobreviveu ao terramoto que destruiu o convento e os seus alegados ossos.
 
Mas há um senão: não há qualquer registo histórico que comprove a existência de Frei Miguel até 1574. Ou seja, durante cerca de 70 anos após a sua suposta morte, não se encontra uma única referência documental, manuscrita, impressa, esculpida ou gravada, ao seu nome. O que, mesmo para um santo, é obra.
 
Como sublinham os historiadores Ivo Carneiro (Universidade do Porto) e Isabel Sá (Universidade do Minho), tudo indica que Frei Miguel foi uma criação oportunista de Frei Bernardo da Madre de Deus, frade trinitário e homem de visão. Em 1574, este solicitou à Misericórdia de Lisboa que voltasse a pintar a imagem do tal frei nas bandeiras e caixas de esmolas. O pedido foi inicialmente recusado, mas após algum teatro administrativo e o testemunho algo dúbio de quatro pessoas que "ouviram falar" do frade, a lenda ganhou força e estatuto.
 
E porquê tamanha criatividade? A Ordem da Santíssima Trindade enfrentava uma crise financeira severa. A sua principal actividade, o resgate de cativos cristãos, estava em declínio e passara a ser desempenhada também pelas Misericórdias, agora mais ricas e influentes. A Ordem precisava de relevância, prestígio e claro está, esmolas. E que melhor forma de o conseguir do que criar um patrono fundacional que ligasse a instituição à génese da caridade organizada em Portugal?
 
O golpe de mestre foi associar a figura do frei espanhol à fundação da Santa Casa, consolidando a narrativa durante a União Ibérica, num gesto de delicada vassalagem à dinastia filipina. A lenda vingou. Ainda hoje há quem acredite piamente no frade com burro, anão e poderes fundacionais, incluindo as câmaras municipais que baptizam avenidas com o seu nome e as instituições que exibem retratos devocionais com ar compungido.
 
Ora, se a verdade histórica viesse a prevalecer, e Frei Miguel regressasse ao imaginário de onde nunca devia ter saído, cairia por terra a suposta precedência fundacional da Misericórdia de Lisboa sobre a de Lagos. E isso convenhamos, teria consequências bem mais sérias do que uma simples correcção de rodapé: implicaria rever séculos de legitimidade simbólica, patrocínios, honras protocolares e, claro, financiamentos. Haverá coragem para tanto?
 
É pouco provável. A História oficial não muda facilmente, sobretudo quando confronta os poderes instituídos. Mas não deixa de ser irónico que a disputa entre Lisboa e Lagos sobre quem fundou primeiro a sua Misericórdia dependa, afinal, de um frade que nunca existiu.
 
O mais estranho disto tudo? É que, em pleno século XXI, ainda haja quem confunda devoção com documentação. E que, em vez de corrigirmos o erro, continuemos alegremente a passear pela avenida do fantasma, a caminho de Roma-Areeiro ou, em Lagos, pela rua do mesmo fantasma, oposta à Rua José Filipe Fialho, esse sim, um filantropo que efectivamente existiu.
 

Sobre as fontes:

Ivo Carneiro de Sousa, na obra “A Rainha D. Leonor (1458–1525): poder, misericórdia, religiosidade e espiritualidade no Portugal do Renascimento” (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian / FCT, 2002), reserva um tratamento crítico à tradição de Frei Miguel Contreiras: ele identifica essa figura como construção posterior, e não encontra menção documental no contexto real do século XV. A obra, de quase mil páginas, dedica um capítulo à “fundação da Misericórdia” onde discute precisamente a genealogia mítica associada a Frei Miguel. Passagem específica: Carneiro de Sousa argumenta, nas páginas 330 a 350, que as referências a Frei Miguel só se consolidam em fontes tardias, e que não há provas seguras em documentos coevos da corte de D. Leonor. (Citado em introduções de volumes dos Portugaliae Monumenta Misericordiarum.). Segundo o autor, a associação de Frei Miguel com a fundação da Misericórdia está mais relacionada a uma construção institucional/lendária do que com uma evidência histórica concreta.
 
Isabel Sá, em “As Misericórdias da fundação à União Dinástica”, in Portugaliae Monumenta Misericordiarum, vol. 1. (Lisboa: UMP / CEHR, 2002), examina criticamente as origens documentais das Misericórdias portuguesas e destaca que o mito de Frei Miguel Contreiras não aparece em fontes de fundação primárias, mas surge em versões posteriores. Noutra obra sua “Quando o rico se faz pobre: Misericórdias, caridade e poder no Império Português (1500–1800)”, a autora analisa explicitamente a figura de Frei Miguel e conclui que ele é usado como “símbolo fundacional” por parte das Misericórdias, mas que não existe suporte coerente em documentos do século XVI para essa identificação como fundador real. Ela enfatiza que a genealogia institucional (ordenamentos, compromissos, estatutos) foi construída posteriormente, o que aponta para um uso mítico ou mais simbólico da figura de Contreiras. Também em “Memória, mitos e historiografia das Misericórdias Portuguesas”, in Portugaliae Monumenta Misericordiarum. Novos Estudos, vol. 10 (Lisboa: União das Misericórdias Portuguesas, 2017), Isabel Sá reinterpreta a historiografia das Misericórdias e identifica como a “versão Frei Miguel” é parte de uma memória institucional construída mais tarde. Por exemplo, ela aponta que muitos historiadores e crónicas valorizam Frei Miguel, mas sem base documental coeva, criando um mito que serve para legitimar a origem da Misericórdia.
 
Artur de Magalhães Basto. Embora a sua obra seja mais antiga (1934), a “História da Santa Casa da Misericórdia do Porto” de Magalhães Basto já continha uma análise crítica da memória de Frei Miguel, apontando para a fragilidade das bases documentais. Basto é citado nos PMM (vol. 5) como precursor da desmistificação.
 
Em síntese, é evidente a ausência do Frei Miguel Contreiras na documentação sua contemporânea e apesar da tradição de que esteve presente na fundação da Misericórdia de Lisboa (1498), os documentos originais (registos, cartas, alvarás, compromissos) reunidos por historiadores não mencionam a sua figura até décadas depois. A pesquisa sugere que a imagem de Frei Miguel foi promovida por membros da Ordem Trinitária, especialmente no final do século XVI, para reforçar a identidade institucional. A sua figura funciona como um “fundador espiritual” ideal, não necessariamente histórico, e serve para legitimar o poder/prestígio das Misericórdias e da própria Ordem Trinitária. Em muitos desses estudos, a rainha D. Leonor é apresentada como agente central na génese da Misericórdia, com uma espiritualidade e patrocínio mais importantes do que a figura mítica de Frei Miguel.
 
Conclusão: Todos os investigadores coincidem em que não há registos fiáveis no final do séc. XV coevos à fundação que mencionem Frei Miguel Contreiras como figura histórica activa. E argumentam que a construção da figura de Frei Miguel surge tardiamente, como parte de uma estratégia institucional para dotar a Misericórdia de uma origem venerável e religiosa. A sua análise indica que Frei Miguel Contreiras é mais um símbolo histórico-mitológico do que uma personagem factual do século XV.

 

 


A noite em que Portugal escolheu a Democracia


Há datas que se erguem na memória colectiva como marcos silenciosos, mas firmes, de uma nação que decidiu o seu próprio destino. O 25 de Novembro de 1975 é uma dessas linhas de força da História portuguesa; dia em que o País, ainda estremecido pelas convulsões do PREC (Processo Revolucionário em Curso), afirmou com clareza que desejava ser livre, mas livre em democracia plural, com direitos garantidos, com o respeito pela vontade soberana do povo.
 
Recordar o 25 de Novembro não é reacender feridas, mas iluminar escolhas. Naquele Outono tenso, Portugal encontrava-se suspenso entre projectos divergentes de futuro. O entusiasmo libertador do 25 de Abril abrira portas, mas também criara incertezas e tentações autoritárias. A encruzilhada era evidente, ou avançava para um regime democrático estável, plural e parlamentar, ou deslizaria para formas de poder onde a liberdade se tornaria débil promessa.
 
Foi nesse cenário que, com coragem e sentido de Estado, militares e civis se levantaram em defesa da legalidade democrática. Afirmaram que a liberdade não se constrói pela imposição de uma só verdade política, mas pela convivência de várias; que a democracia não é fragilidade, mas a mais exigente das forças; que o povo português merecia não apenas sonhar um futuro melhor, mas tê-lo garantido pelas instituições que livremente escolhera.
 
Sem o 25 de Novembro, Portugal não seria, hoje, um país verdadeiramente democrático. Não teríamos conhecido a normalização constitucional, a consolidação dos partidos, a alternância pacífica no poder, o desenvolvimento económico assente em estabilidade política, nem a integração europeia como nação adulta e segura de si. A democracia que celebramos - com todas as suas imperfeições, mas também com as suas virtudes - foi preservada naquela madrugada decisiva.
 
Evocar o 25 de Novembro é, pois, reconhecer o valor daqueles que, num momento crítico, protegeram o futuro de todos nós. É lembrar que a democracia não é um dado adquirido, mas uma construção diária, que exige vigilância, equilíbrio e coragem cívica. É, enfim, reafirmar a certeza de que Portugal escolheu ser livre e de que essa escolha permanece o maior legado desse dia.
 
Lamentam o 25 de Novembro de 1975 aqueles que defendem correntes políticas de cariz totalitário e que viam no processo revolucionário de 1974-75 uma oportunidade para a transformação do país numa sociedade em que a liberdade individual e os meios de produção ficariam submetidos aos ditames dos governantes.  

Nesses, destacam-se o Sector revolucionário de esquerda (no sentido histórico do termo), que Inclui pessoas e movimentos que, à época, defendiam uma democracia popular, com forte participação dos trabalhadores, tal como preconizam os modelos políticos de inspiração socialista; e os Nostálgicos da experiência revolucionária, que, mesmo não sendo militantes de extrema-esquerda, guardam uma memória afectiva e idealizada de um período de intensa mobilização social e que perfilham uma fé quase religiosa num internacionalismo político que elimine diferenças, tradições e culturas.

Em resumo, aqueles que lamentam o 25 de Novembro podem ser qualificados como pessoas ou correntes que valorizavam o processo revolucionário em curso e desejavam a sua continuação, que acreditavam que a transformação política e social deveria ter ido mais longe, e que sentem que o 25 de Novembro representou uma inflexão que travou essas possibilidades.

Estão errados, como o estão também os extremistas de direita que hoje reclamam honestidade e lisura política e pública, como se fossem eles próprios exemplos acabados da ética que exigem aos outros. Não são. 

A Democracia é e será sempre imperfeita, mas é e será sempre a melhor via para a humanização da sociedade e para a construção de civilização.
Será miragem e erro fatal qualquer alternativa à Democracia assente no Estado de Direito, que tenha o indivíduo e os seus direitos, liberdades e garantias como fundamento primordial da sua própria natureza.

VIVA ABRIL EM NOVEMBRO!


 - -
 
Cronologia dos acontecimentos:

00h00 – 02h00: Intensificam-se sinais de tensão entre unidades militares afectas a diferentes facções do MFA. O COPCON, dirigido por Otelo Saraiva de Carvalho, mantém elevado estado de alerta. A força aérea e unidades pára-quedistas contestatárias preparam acções de bloqueio.
 
02h00 – 04h00: Pára-quedistas de Tancos iniciam movimentos para ocupar bases aéreas, visando neutralizar a Força Aérea, vista como alinhada com o Grupo dos Nove (moderado). Cortes de comunicações começam a ser registados em alguns pontos estratégicos.
 
04h00 – 06h00: Queda de transmissões em diversas bases aeronáuticas. Grupos pára-quedistas ocupam a Base Aérea de Monte Real e tentam controlar outras bases. A situação gera um estado de alarme entre estruturas políticas e militares.
 
06h00 – 08h00: A Força Aérea reorganiza-se rapidamente e prepara a resposta.
O Governo e o Presidente da República, Costa Gomes, acompanham a evolução dos acontecimentos. Reúne-se o núcleo de oficiais que coordenará a reacção militar, com Ramalho Eanes como figura central.
 
08h00 – 10h00: A Força Aérea lança uma contra-ofensiva, recuperando parte das bases ocupadas. São emitidas as primeiras ordens para imobilizar os pára-quedistas insurgentes. O ambiente político é de extrema tensão: receia-se que a crise evolua para confronto generalizado.
 
10h00 – 12h00: O cerco operacional aperta-se sobre as unidades revoltadas. As comunicações são gradualmente restabelecidas. O Governo afirma que a legalidade democrática será defendida, rejeitando qualquer tentativa de golpe.
 
12h00 – 14h00: A situação começa a virar a favor das forças leais ao Grupo dos Nove. A Força Aérea recupera completamente o controlo operacional, impedindo novas operações dos pára-quedistas. Tropas leais cercam posições estratégicas ao norte de Lisboa.
 
14h00 – 16h00: Prosseguem as negociações e cercos. Já não há capacidade efectiva de avanço pelos insurgentes. O COPCON vê-se neutralizado e sem possibilidade de acção coordenada. Rumores de novas movimentações falham por ausência de comunicações.
 
16h00 – 18h00: Ramalho Eanes dá ordens decisivas para terminar as últimas resistências.: Rendição e desmobilização gradual de unidades pára-quedistas. O clima político estabiliza, e as forças moderadas controlam a situação.
 
18h00 – 20h00: Fim efectivo das operações militares. As autoridades reiteram que a democracia constitucional será seguida como caminho único. A crise é considerada controlada, embora o país permaneça apreensivo.
 
20h00 – 24h00: Comunicações oficiais procuram acalmar a população. Partidos políticos reagem: uns condenam a acção dos pára-quedistas, outros denunciam repressão. Torna-se claro que a via revolucionária radical fica definitivamente derrotada, abrindo caminho à estabilização democrática.

Os meus avós em Olhão nos alvores do século XX

 



No início do século XX, Olhão encontrava-se num momento de transição acelerada, quase febril. O século XIX encerrara com a conquista de uma prosperidade nova, assente em dois pilares: o mar e a indústria conserveira. Estes dois elementos iam redefinir o tecido social e económico da vila, e é dentro desse ambiente que Francisco Lourenço Castelo e Maria da Alegria terão construído a sua vida.

O porto de Olhão era, literalmente, o pulmão económico. Nas madrugadas, a barra fervilhava. Das cabanas e ruas estreitas acorriam pescadores com as suas artes, preparando a saída para o mar. Ao longo do dia, as embarcações chegavam carregadas de sardinha, atum, cavala ou polvo, consoante a estação. O cheiro forte da salga e da lota impregnava o ar.

É provável que Francisco Lourenço Castelo, como comerciante e industrial, mantivesse ligações diárias ao porto, vigiando a chegada das pescarias e assegurando que a matéria-prima chegava rapidamente à fábrica. Se não ele próprio, alguém a seu mando o faria.

A economia de Olhão era imprevisível, dependente do temperamento do mar. Um ano de abundância podia significar expansão; um ano fraco podia comprometer investimentos.

A partir de 1900 Olhão cresceu continuamente graças à expansão das conservas de peixe.
As técnicas modernas de esterilização, trazidas do estrangeiro e adaptadas por industriais algarvios, transformaram a vila num polo produtivo de relevância nacional.

As fábricas empregavam sobretudo mão-de-obra feminina, célebre pela rapidez e destreza no manuseio do peixe, mas também mal paga e obrigada a horários extensos, ditados pelo ritmo da chegada das embarcações. Estas unidades fabris funcionavam como pequenas comunidades, onde se cruzavam mulheres do povo, mestres conserveiros, soldadores, estivadores, serralheiros, e crianças encarregadas de tarefas menores.

Para Francisco, este mundo era simultaneamente negócio e responsabilidade social: qualquer industrial disciplinado devia manter a fábrica preparada, negociar com exportadores e lidar com a sazonalidade imprevisível.

O comércio da cortiça, essencial para rolhas, boias, acondicionamento e embalagens, complementava a indústria de conservas. Empresários com visão compravam cortiça no interior algarvio ou alentejano, transformavam-na localmente ou revendiam-na aos mercados industriais. O meu avô, como comerciante de cortiça, estaria assim numa dupla frente: ligado ao sector primário e artesanal da cortiça, com contactos que ultrapassavam a vila, e conectado à indústria conserveira, que consumia materiais e serviços diversos. Embora nos períodos de maior actividade industrial tivesse reduzido substancialmente a actividade do comércio da cortiça, este duplo papel garantia-lhe um lugar na pequena burguesia industrial, a qual teria alguma capacidade de influenciar decisões locais.

Olhão era uma comunidade profundamente marcada por tradições marítimas, com procissões ligadas a Nossa Senhora do Rosário e do Carmo; festas de Verão associadas ao mar; rituais da faina e superstições marítimas; e convivência intensa em tabernas, mercados e armazéns.

A pequena burguesia frequentava também clubes recreativos, sociedades musicais e cafés onde se discutia política, sobretudo nestes anos de grande instabilidade nacional, com o fervor republicano a crescer. Em Olhão, que foi vila progressista e anticlerical em certos sectores, é plausível que o meu avô se movesse entre círculos que acompanhavam estas mudanças.

A habitação do casal seria uma casa típica olhanense, com paredes caiadas, cobertura em açoteia, platibandas decoradas e divisões simples, mas bem ordenadas. O mobiliário, de madeira escura, era sinal de um certo conforto, e as fotografias formais como a que mostra os meus avós seriam uma demonstração de estatuto e modernidade.

As mulheres desta classe social desempenhavam um papel central na administração doméstica e na educação dos filhos, prestando também um apoio discreto, mas essencial às actividades comerciais dos maridos. Nelas assentava a manutenção de laços familiares e de solidariedade, fundamentais numa vila onde todos se conheciam.

Não sei se as roupas elegantes da fotografia sugerem que Maria da Alegria vinha de família com alguma posição, ou se documentam o seu enlace com o meu avô; sei apenas que era natural de Celorico da Beira, onde nasceu em 1889.

Quando o casal contraiu matrimónio o mundo estava a mudar rapidamente: a República aproximava-se (1910), as fábricas multiplicavam-se e a partir de 1925 formariam o centro conserveiro mais importante do Algarve; os caminhos-de-ferro começavam a ligar o Algarve ao resto do país; a classe média emergia lentamente no litoral algarvio, e a fotografia de estúdio tornava-se símbolo de modernidade.

O casamento não era apenas uma união familiar, era também um acto de afirmação social, uma forma de mostrar respeitabilidade e pertença ao estrato industrial-comercial da vila.

Os meus avós, Francisco Lourenço Castelo e Maria da Alegria, terão vivido os seus primeiros anos de casados numa Olhão vibrante, industriosa e transformadora. Ele, dividido entre o mar, o comércio e a fábrica; ela, pilar doméstico e guardiã da estabilidade familiar. Juntos integraram a geração que consolidou o desenvolvimento económico da vila e a preparou para a modernidade do século XX.

 

Fotografia de estúdio, provavelmente retratando o casamento dos meus avós, por volta de 1907-1908; animada por Inteligência Artificial.




 


PARA ARQUIVO DA MEMÓRIA



«O que acontece em torno de André Ventura não é apenas um fenómeno político; é um espelho psicológico do país inteiro. Em meio século de “democracia”, ninguém conseguiu o que ele conseguiu: rasgar o véu de normalidade que encobria a decadência do regime e obrigar Portugal a olhar-se ao espelho. Ventura partiu o silêncio com uma pedrada no charco e, num país habituado a cochichar, isso foi um maremoto.

O mais interessante, no entanto, não é o homem em si, mas o que ele revela sobre nós. A maioria dos que o odeiam não o compreendem, e a maioria dos que o idolatram também não. Uns projectam nele o medo do autoritarismo, outros o sonho do salvador. No fundo, ambos se alimentam da mesma carência: a ausência prolongada de verdade e coragem na política portuguesa. Ventura é o produto inevitável de um povo exausto de ser enganado com boas maneiras.

Ele não inventou o descontentamento, apenas lhe deu voz. E fê-lo com uma frontalidade rara, num cenário onde a cobardia se disfarça de moderação. Falou do que ninguém queria ouvir: insegurança, imigração, parasitismo, corrupção, o estado que suga e não serve. E por isso tornou-se o catalisador da raiva legítima dos invisíveis. Há mérito nisso, sim. É preciso coragem para nomear o óbvio quando todos vivem de fingir que o óbvio não existe.

Mas há também um perigo real. Ventura joga no terreno da emoção pura, e a emoção é um fogo difícil de controlar. Quando a política se transforma em espectáculo, a verdade torna-se refém da audiência. Ele compreendeu isso antes dos outros, transformou o debate num ringue e as ideias em golpes de impacto. É mediático, provocador e eficaz. O problema é que quanto mais sobe pelo escândalo, mais dependente fica dele. A sua força é o seu vício.

Ainda assim, seria intelectualmente desonesto reduzir o fenómeno a puro marketing. Se fosse apenas teatro, já teria acabado como tantos populismos de ocasião. O que o sustenta é mais fundo, é o ressentimento autêntico de milhões de portugueses cansados de serem tratados como notas de rodapé no próprio país. Ventura é o resultado inevitável de décadas de governação tecnocrática, de elites que falam de “igualdade” enquanto se blindam do povo que fingem representar.

O seu sucesso é, em última instância, o atestado de falência moral da classe política portuguesa. Ele fala alto porque os outros há demasiado tempo sussurram. E o povo, farto de discursos vazios e promessas medidas ao milímetro, reconheceu nesse grito algo vivo.

A questão não é se Ventura é bom ou mau. É o que ele revela sobre o nosso estado colectivo: a fome de autenticidade, mesmo quando bruta; o cansaço com a mentira cortês; a necessidade quase infantil de alguém que, certo ou errado, pareça acreditar no que diz.

Ventura é fenómeno e sintoma, risco e sinal. Mostra o que Portugal pode ser quando se cansa de ser submisso, mas também o que pode destruir-se se confundir raiva com redenção. O futuro dirá se é o início de uma mudança adulta ou apenas o grito de um povo à beira da ruptura.

Mas uma coisa é certa: negar-lhe a importância seria negar a própria verdade do país. Porque Ventura não veio de fora, veio de dentro. É Portugal, finalmente, a reagir.»

 

O Negrume

 


A Porta do Postigo, no largo que hoje chamam da Torrinha, era a última a ser encerrada e, ainda assim, a que mais vezes se reabria aos retardatários. Situada no alto da colina, dominava o horizonte e permitia avistar de longe quem quer que se aproximasse, vindo do campo ou do mar, ambos inevitavelmente em plano inferior. Era a mais guardada de todas, contando com um corpo de mais de uma dúzia de homens da milícia, prontos a resistir até à chegada de reforços do quartel situado no extremo oposto da cidade.

Eram quase nove horas da noite quando um cavaleiro, envolto em capa escura, surgiu subindo a íngreme ladeira que conduzia à aldeia. Ao aproximar-se, clamou pedindo entrada. O sentinela, encimado no baluarte, perguntou quem era e ao que vinha. O cavaleiro respondeu com voz grave e pausada, oferecendo as explicações requeridas. Logo outros guardas, postados no plano inferior da fortificação, entreabriram a pesada porta, apenas o suficiente para permitir a passagem do homem e da sua montada.

Uma vez dentro, o forasteiro perguntou se alguém permanecia na igreja cuja torre divisava erguendo-se por cima do casario. Disseram-lhe que talvez o prior ali estivesse. Acomodou o cavalo na estrebaria próxima e, de passo firme, dirigiu-se ao templo, subindo os degraus que o separavam da rua inclinada que descia para a baixa da urbe.

Dentro da igreja rezavam quatro ou cinco almas: um velho que pedia perdão por pecado antigo e algumas mulheres dispersas, que murmuravam preces e orações em surdina. À entrada do homem, uma súbita aragem percorreu a nave, correndo em direcção à sacristia e fazendo sair de lá o padre, alarmado com a porta escancarada que deixara penetrar tal corrente fria.

Ao ver o estranho, erecto e imóvel no meio do templo, rosto semicoberto pelo capuz, figura recortada na ténue luz das velas bruxuleantes, ameaçadas de se extinguir, o clérigo sentiu um frio percorrer-lhe o costado e gelar-lhe o sangue. A inquietação cresceu quando ouviu a voz do visitante, cavernosa e terrível:

- Sim, sou eu o Demónio que tanto temes.

Um grito colectivo ecoou pelo templo. Em menos de três minutos acorreram soldados da guarda - a igreja distava apenas cinquenta metros da Porta e do seu aquartelamento.

- É o Diabo! O Demónio! É Belzebu que entrou na Casa de Deus! - clamava o padre, lívido, erguendo um crucifixo de madeira e brandindo-o contra o intruso.

O estranho ria; um riso seco, metálico, que fazia estremecer as velas e ressoava nas abóbadas. Os guardas, atónitos, investiram com espadas e alabardas; um deles chegou a disparar a velha pistola de pederneira. Tudo foi em vão. As lâminas trespassavam apenas o ar, e o chumbo se desfazia ao contacto do corpo imaterial daquela aparição.

- Detende-vos, tolos! - bradou o Demónio. - Hoje estou aqui para lutar ao lado Dele.

E apontou para o Cristo crucificado que dominava o altar-mor.

- Espero que o Pai envie reforços, pois a batalha será dura, acrescentou, com um sorriso enigmático.

Logo duas colunas de luz incendiaram o ar diante da cruz, e delas se formaram os arcanjos Gabriel e Rafael. Pouco depois, uma fita vertical e resplandecente oscilou sobre o altar, o próprio Espírito Santo manifestava-se.

- Ora vejam! - troçou o Demónio. - Também cá estás, velho Espírito Santo?

Antes que o padre concluísse os esconjuros que balbuciava desde a entrada da criatura, uma nova figura emergiu, Lúcifer, o Portador da Luz, que viera também, censurando a presença de Satanás, naquela convergência de entidades. Pois uma força mais terrível que todas se aproximava.

Gabriel, de semblante grave, voltou-se para os humanos:

- Nenhum de vós se moverá durante o combate. Não brandais armas, não faleis, não temais. Rezai, se o vosso coração o permitir.

Então, lentamente, a cidade foi sendo engolida por um negrume espesso, que obscureceu muralhas e casas, como um manto de pez etéreo descendo sobre o mundo. Até Satanás estremeceu. Era o Nada. O inimigo sem nome, sem forma, sem princípio, aquilo que antecede a própria Criação. E, contra ele, estavam agora lado a lado anjos e demónios, unidos por um pavor comum.

Os homens choravam em silêncio, abraçados, ajoelhados nas trevas. O ar cheirava a enxofre e a desespero. Sobre as ameias, Astaroth comandava legiões infernais, empunhando lanças retorcidas de onde brotavam faíscas de poder inaudito. Travava-se uma batalha entre o que é e o que jamais deveria ter sido; entre o Todo, que compreende o Bem e o Mal, e o absoluto Nada.

Um clarão rasgou o firmamento: Lúcifer lançara um relâmpago de tal força que nenhum trovão terrestre poderia igualar. Mas a luz extinguiu-se a poucas centenas de metros, devorada pelo negrume que tudo engolia.

De súbito, o ruído dos geradores cessou.

- Estamos lixados - murmurou o electricista da produção cinematográfica. - Acabou-se a gasolina. Vamos ficar às escuras.

A energia escura do Universo vencera a batalha.

Por alguns instantes ninguém falou. O realizador, de olhos fixos no monitor apagado, respirava devagar, como quem regressa de um pesadelo. Um dos actores, ainda coberto de fuligem e maquilhagem, ousou romper o silêncio:

- Mas… e aquele cheiro?

Era um odor acre, metálico, como de ferro queimado, que se espalhava pelo plateau. E, por uma fracção de segundo, todos jurariam ter visto, reflectida nas vidraças da igreja verdadeira, lá fora, no largo da Torrinha, uma sombra enorme, fugidia, mover-se contra a luz das estrelas.

Depois, tudo voltou ao normal.
Ou, talvez, apenas parecesse.

-

 


Reflexão [que foi] Íntima

 


Sempre vegetei na mediocridade, esse limbo amável a que os portugueses chamam mediania, como quem disfarça a morte lenta com um eufemismo piedoso. E, todavia, foi a mesma consciência que me guiou até essa constatação que me ofereceu a palavra que me resume: parvalhão.

Há, contudo, uma subtil diferença entre o tolo feliz e o lúcido derrotado. A tragédia não está em ser pouco, mas em saber-se o pouco que se é; ou seja, em ter-se consciência. Vejo tantos imbecis, velhacos e desavergonhados que vivem radiantes na inconsciência do que são; e neles invejo a bênção da cegueira, a paz dos animais simples que jamais suspeitam de si mesmos.

Perguntar-me-ão de onde me vem a coragem para esta nudez. Mas não é coragem, é necessidade. Não me exponho, exorcizo-me. Usar os outros como espelho é o meu modo de expulsar o demónio da auto-piedade. Ao dizer o que sou, separo-me de mim; é como despir uma pele usada e deixá-la pendurada no cabide da memória. E, ao confessar-me, desarmo os que me poderiam julgar; torna-se-lhes inútil apontar o que eu já proclamei.

Assim, uso o olhar alheio como cinzel e o juízo dos outros, justo ou injusto, como instrumento de escultura. Sou uma pedra rústica por lapidar que se trabalha a si mesma no atrito com o mundo. E tudo isso sem necessidade de atender a críticas alheias, já que a minha auto-crítica é mais profunda, assertiva e contundente: Ninguém pode derrubar quem já se encontra por terra.

Prós: a brandura das expectativas baixas; o conforto de quem se sabe inferior e, por isso, se permite ver com clareza.

Contras: a solidão dos que pensam demais e o desprezo que inspira aquele que tem a ousadia de dizer aos outros o que são.

 


Deus em versão Beta

 



Se tentava relacionar-se com mulheres, duas coisas podiam acontecer: raramente elas aceitavam o relacionamento, ou logo consideravam assédio aquela tímida tentativa de aproximação. Farto de más interpretações, passou a ignorá-las, e às crianças também, com receio de que um simples olhar pudesse ser tido por crime. Com o tempo, adquiriu o saudável hábito de nada ver, nada ouvir e nada sentir.

Havia aspectos da vida que, por segurança, remetera para o domínio da fantasia, interditando-lhes o regresso à realidade. Era mais prudente assim. Neste ambiente assexuado e higiénico decorria a sua existência de solteirão de meia-idade, homem ordeiro, pontual, imune às tentações do romantismo. As novelas, com os seus beijos fabricados e as suas lágrimas importadas, pareciam-lhe relíquias de um mundo que ainda acreditava na emoção.

Engenheiro de profissão, programava a vida com o rigor de um manual de instruções. Evitava os imprevistos como quem evita a peste, e tratava os relacionamentos humanos como avarias potenciais. Mantinha distância profiláctica de tudo e de todos e vivia assim, purificado de humanidade.

Mas a culpa, essa fiel companheira, nunca o abandonava. Não era culpa teológica; Deus, se existisse, já teria sido despedido por incompetência, mas culpa doméstica, educacional, cultural. A culpa dos erros cometidos e dos outros apenas imaginados, a culpa dos fracassos e, pior ainda, dos sucessos indevidos. Essa culpa, fermentada ao longo dos anos, transformara-se numa força moral que o impelia à imobilidade. Temia falhar; e, para não falhar, era preferível não agir.

A rotina instalou-se como uma religião sem altar: o dia dividido em horários, as emoções numeradas, os gestos calibrados. Nessa ausência de risco e de novidade cultivava-se a santa mediania, o ideal nacional de virtude. A mediocridade tornara-se o verdadeiro sacramento: quem não ousava, redimia-se.

A culpa é uma patologia da mente, perturba o equilíbrio, rouba a liberdade, apaga a harmonia e a tolerância. Quem vive no erro e encara a humanidade como essencialmente errática não reconhece a qualidade do que é simplesmente suficiente. Só vê os extremos, a mediocridade e a excelência, esquecendo que o mundo é feito das infinitas gradações entre ambos. Assim, torna-se incapaz de admitir que os outros possam ser suficientemente perfeitos para criar o que é bom e belo.

Equivocado, torna-se refém de um pecado que só existe na irracionalidade dos dogmas. O nosso engenheiro era, pois, um homem fechado, como tantos outros, prisioneiros na caverna de Platão, entretidos a discutir a qualidade da escuridão: ”Aqui, está mais escuro”; “Não, não, o negro aqui é que é mais escuro, aí é muito pálido!”

Um dia, três desses prisioneiros evadem-se. O primeiro, fiel à tradição, mantém-se de costas para a luz, ofendido com a claridade. O segundo enlouquece à vista do real, era luminosidade a mais e revelava sujidades e imperfeições. O terceiro, o nosso engenheiro, resolve libertar-se de vez, corta as amarras mentais, renega o passado, rejeita os preconceitos, as tradições e até a língua que lhe ensinaram.

Funda então uma religião nova, mais moderna, mais líquida; e uma nova sociedade, sem classes, sem sexos, sem nomes, sem contradições, um verdadeiro paraíso de indistinções. A sexualidade dissolve-se num mar morno de indivíduos neutros, de identidades solúveis, de paixões pasteurizadas. O objectivo é a fusão com o todo; que cada criatura seja simultaneamente o bicho e a maçã, a árvore e a terra, o adubo e o jardineiro, a água e o sol.

E assim, passo a passo, evolui-se para a forma mais perfeita da existência, o ser unicelular, sem cérebro, sem culpa, sem vontade, sem pecado, sem história e, felizmente, sem opinião. No final, nem consciência lhe resta para descobrir que se tornou Deus.

 


Entre a Luz e o Tempo - Crónica de um Arquivo Fotográfico

 

Foto de Susana Botelho: exibindo a apresentação “O Visual”, na Fototeca Municipal em Outubro de 2025, no término da visita guiada “Explorando Lagos Através dos Sentidos” com Artur de Jesus.


Nem todos podem afirmar que exercem a profissão que ambicionavam. Eu posso.

Ingressei na administração local em Abril de 1993, incumbido de desenvolver um projecto videográfico centrado no registo das actividades e eventos promovidos pelo município - prolongamento natural do trabalho iniciado na ARTVIDEO, iniciativa colectiva que reuniu três entusiastas da imagem em movimento.

Pouco tempo depois, ficou vaga a função de fotógrafo, e sendo essa a minha verdadeira vocação, cultivada desde 1977, através de experiências amadoras e do contacto com o "Estúdio CS", galeria e laboratório fotográfico, tendo-se seguido uma breve passagem pelo Laboratório Industrial de Fotografia “Montecolor”, que me proporcionou o convívio com uma dezena de fotógrafos profissionais espalhados pelo Algarve. Das conversas com alguns deles colhi ensinamentos interessantes, embora o ritmo intenso do trabalho não permitisse aprendizagens demoradas. E, assim, abracei a oportunidade e assumi a responsabilidade de proceder ao registo fotográfico dos eventos e actividades das estruturas municipais.

Achando que todo o acervo produzido necessitava de uma organização eficiente, propus-me, desde o início, criar um arquivo funcional de imagens do concelho de Lagos, propósito a que me dediquei com suficiente perseverança e que se concretizou ainda na primeira década deste século, na Fototeca Municipal de Lagos.

Hoje, continuo a assegurar o funcionamento da Fototeca: faço a gestão dos arquivos e disponibilizo imagens a pedido dos serviços municipais, de investigadores, estudantes e munícipes; registo e edito fotografias destinadas à preservação documental; recebo, digitalizo e identifico imagens antigas relacionadas com Lagos; investigo a História Contemporânea local e recolho dados que permitam contextualizar e legendar as imagens; e elaboro artigos de índole histórica a partir de fotografias do passado.

Paralelamente, desenvolvo e mantenho projectos que visam aproximar os cidadãos do património visual do concelho, como o sítio web da Fototeca, apresentações multimédia, publicações temáticas e exposições foto-documentais. Promovo ainda workshops de Iniciação à Fotografia e selecciono conteúdos para diversas edições e mostras.

Ao longo deste percurso, procurei ampliar os meus conhecimentos em áreas complementares, como História e Direito Administrativo, por os considerar essenciais à prática profissional que abracei e que me proporciona verdadeira satisfação.

Esta é, em essência, a natureza do meu trabalho quotidiano. Agradeço aos meus conterrâneos, e em especial a quantos, ao longo dos anos, me confiaram instrumentos e saberes, a possibilidade de o desempenhar com dedicação e esmero. Poderia ter feito melhor nestes trinta anos? Certamente. Mas fiz o que as circunstâncias, e sobretudo as minhas capacidades, permitiram.

Espero continuar a servir este projecto por mais um triénio, antes de entregar a outros o encargo de o renovar, melhorar e engrandecer, perpetuando a memória vivida e resgatando a memória perdida através das imagens.


Um Conto de Halloween


 

A névoa subia do rio como uma emanação dos mortos, envolvendo a cidade de Lagos num torpor húmido e mudo. As casas, debruçadas sobre a avenida marginal, pareciam túmulos com janelas, e nelas tremiam luzes baças, como olhos de velas prestes a extinguir-se.

Na extremidade da rua Miguel Bombarda, junto ao quartel, vivia o relojoeiro Hilário Furtado, homem de pulso firme e semblante ausente, que raramente falava e nunca sorria. Ali possuía também a sua oficina, no piso térreo da casa onde, dizia-se, afinava relógios como quem afina almas, e cujo pêndulo predilecto, um velho regulador de prata, batia ao compasso do seu coração.

Na noite de 31 de Outubro, ao regressar da taberna, encontrou diante da oficina um objecto que não lhe pertencia, uma pequena lanterna de vidro negro, envolta num farrapo de desperdício (estopa), com uma argola enferrujada e uma inscrição gravada em letras miúdas: «Para ver o que o tempo esconde.»

O relojoeiro, levado pela curiosidade mórbida dos que vivem demasiado tempo sozinhos, acendeu-a. Mas a chama que nasceu dentro do vidro era escura, um lume que devorava a própria claridade. As sombras da oficina deformaram-se, torcendo-se em formas humanas, e os ponteiros dos relógios começaram a mover-se desordenadamente, noutras direcções que o tempo nunca ousara seguir.

Então ouviu-se um tique-taque que não vinha de relógio algum, e uma voz antiga, rouca e metálica, soou do fundo da lanterna: - Pagas agora o tempo que roubaste.

O ar tornou-se espesso como chumbo; os ponteiros pararam e o relojoeiro, com o rosto banhado por um clarão negro, sentiu o coração bater dentro do vidro. Um instante depois, a oficina ficou vazia.

Na manhã seguinte, os vizinhos que se atreveram a entrar pela porta escancarada encontraram todos os relógios sincronizados, marcando a meia-noite exacta, e, sobre o balcão, a lanterna ainda acesa, projectando na parede a sombra de um homem curvado que se movia lentamente.

Desde então, nas noites de Halloween, quem ousa passar diante da oficina fechada jura ouvir o tique-taque subtil de um coração que nunca deixou de contar os segundos da sua própria eternidade.

  


S. Gonçalo segundo Gil Vicente



Aproxima-se o Dia do Município, amiúde confundido com o da cidade (que, esse sim, é a 27 de Janeiro), e eu dei em lavrar esta crónica, inspirada nesse feriado que Lagos celebra a 27 de Outubro.

Senhores e senhoras de fino ouvido e paciência infinita, escutai-me um instante, que não vos tomarei mais tempo do que o diabo leva a rir-se de um frade. Já o mestre Gil Vicente ia velho e trôpego, com a memória a falhar-lhe, mas ainda assim, por artes do destino ou teimosia minha, logrei entrevistá-lo; sim, o próprio pai dos dramaturgos lusos, esse que pôs reis e vilões a falar no mesmo palco sem pedir licença a ninguém.

Não foi empresa fácil pois o homem já confundia o Auto da Barca com o das Almas, e chamava-me ora anjo, ora mafarrico. Ainda assim, entre um bocejo e uma praga, lá me contou quanto pôde sobre São Gonçalo de Lagos e o resto inventei eu, que também é ofício de autor.

Desses ditos, memórias e esquecimentos nasceu esta micrónica que ora vos apresento, mistura de fé e troça, com algum enxofre e muita devoção. Se o mestre Gil lá do Céu me ouvir, há-de rir-se, ou chamar-me a prestar contas. Seja o que Ele quiser, e o público também.

Diz-se, e com razão, que cada cidade tem o seu santo que lhe serve de espelho. Lisboa tem o António, que fala com os peixes; no Porto, o João, que acende fogueiras; em Braga, o Jesus bonzinho, que vigia olhando longe, como uma gigantesca suricata, e em Lagos, temos S. Gonçalo, frade dominicano de boa alma, que de tanto amar o mar, acabou por ser o seu capelão.

Não se julgue que o dito santo lacobrigense se limitou a benzer redes e acalmar borrascas. Não! S. Gonçalo foi, é e será o mais prático dos taumaturgos; santo de atuns, remendos e milagreiro de ocasião, sempre pronto a acudir ao conterrâneo aflito, desde que este lhe prometa uma vela, uma sardinha e um pouco de fé, ainda que racionada.

Nasceu o moço Gonçalo nesta mui piscosa Lagos, quando os homens ainda lavavam as barbas ao jeito mourisco e os barcos eram de remos, pequenas velas e muita esperança. Cresceu entre redes, sermões e espinhas, e dizem que, ainda menino pregava às gaivotas sobre a vaidade do mundo, o que causava grande alvoroço entre as aves e riso entre os homens. Entrou, consequentemente, para frade, não por falta de engenho para o comércio, mas porque os peixes lhe pediram intercessão; e quem é o homem que nega súplica a um pargo?

Por via disso, fez S. Gonçalo milagres de toda a ordem e feitio, e alguns de desordem também. Conta-se que, em certa noite de temporal, salvou um barco com três rezas e meia, sendo a meia reza apenas um “Ámen” dito a tempo. Noutra ocasião, multiplicou sardinhas para um banquete em honra de Nª Sr.ª da Piedade, o que prova que a santidade é irmã da boa cozinha.

Mestre Gil pigarreou, lançando o olhar em redor à procura duma garrafinha de uísque, à maneira do professor Hermano Saraiva, que a usava para aclarar a voz, mas, achando-se sem tal tónico, prosseguiu o depoimento.

Conta-se, também, entre risos e terços mal rezados, que certo dia S. Gonçalo decidiu acudir às moças que suspiravam de amores tardios. Era um tempo em que as donzelas já rezavam com mais esperança do que fé, e o santo, condoído, entendeu que a melhor esmola seria dar-lhes um empurrãozinho… divino.

Uma certa noite, ao soar as doze no sino da igreja, S. Gonçalo desceu do seu nicho e foi passear pela margem do rio. Bateu três vezes com o bordão na muralha, e logo o rio em vez de correr para o mar, começou a correr para trás - tal era a magia do santo que até terá influenciado um tal David Copperfield muitos séculos depois.

Os rapazes, que já dormiam de ressaca e fadiga, acordaram de súbito com ânimo renovado e um fervor de namoro que só podia vir do Céu, ou de coisa parecida concentrada em pequenas pastilhas azúis.

Na manhã seguinte, metade da vila jurava ter visto sombras de véus e capas a deambular pelas ruas, e a outra metade contava que o sino da torre tocara Ave-Maria ao contrário. E nove meses depois, nasceram tantas crianças que o pároco teve de benzer a água num tanque de rega, para as baptizar.

Mas o mais curioso dos seus prodígios foi o da chamada “filosofia do vento”. Ensinava o santo que o vento do Norte trazia frio e indiferença, ambos difíceis de aquecer, enquanto o Levante, caprichoso como certas mulheres, ora soprava loucura, ora poesia, o que, no fim das contas, vem a dar praticamente no mesmo. Ainda hoje, os de “Lágues”, quando lhes dá para filosofar, dizem que o vento mudou; quem sabe se não é o próprio S. Gonçalo a soprar-lhes ao ouvido?

Depois da sua morte (que na verdade terá sido mais uma viagem do que um passamento), o santo continuou a visitar Lagos com o mesmo zelo que um fiscal da ASAE. Em cada 27 de Outubro, a cidade veste-se de festa; há procissão, foguetes e discursos, e cada político acha-se um pouco mais virtuoso e inspirado do que o outro. O santo, lá do seu pedestal, no Chão Queimado, observa tudo com aquele sorriso discreto de quem já viu muita missa e pouca conversão; ou será sorriso descorado de quem está incomodado com os dejectos das gaivotas que lhe escorrem pelo rosto?

Os lacobrigenses, por seu turno, herdaram de S. Gonçalo uma fé um tanto desconjuntada, uma filosofia salgada de maresia e uma inclinação incurável para beber… em sua memória. Foi por ele que Lagos aprendeu que a vida se parece com o mar que a beija: ora vai, ora vem; ora dá peixe, ora dá naufrágio; há calmaria à segunda-feira e borrasca ao Domingo.

Assim é S. Gonçalo, santo de remendos e esperanças, padroeiro dos que se molham, dos que prometem e dos que tardam em cumprir. E se algum dia o virdes, em sonhos ou em bruma, não lhe peçais ouro nem glória, pedi-lhe apenas um vento amigo, um peixe gordo ou um bom pretexto para rir. Porque, no fundo, S. Gonçalo não é apenas o padroeiro de Lagos, é o patrono do humor local; aquele que ensina que a vida, como o mar, é melhor navegada com alma despreocupada e língua afiada.

O vate do drama trágico-cómico já semicerrava os olhos de fadiga, recostado no desconfortável banco traseiro do velho Ford Prefect. Saí então de mansinho, sem bater a porta, deixando-o a murmurar entre sonhos: “Mais vale um asno que me carregue do que um cavalo que me derrube!”


A Queda dum Anjo

A Queda de um Anjo

Há livros que nos servem de espelho e há espelhos que, por desgraça, nos devolvem o retrato inteiro. “A Queda de um Anjo”, de Camilo Castelo Branco, é desses que não se lêem sem certa prudência, não vá o leitor, inesperadamente, ver-se ao virar da página. E se Camilo tivesse frequentado uma daquelas academias de estudos esotéricos, decerto nos teria legado “A Queda de um Anjo Iniciado”.

O protagonista desta versão alegórica não é um político seduzido pelos salões do poder, como Calisto Elói, mas alguém que, subindo degrau após degrau, alcança posição de prestígio entre os seus pares, por quem era tido como exemplo de virtude, sabedoria e paciência de santo.

Durante anos, a sua palavra soou justa, a sua advertência tida por fraternal, e o seu nome murmurado com respeito. Não era um santo, entenda-se, mas possuía aquele brilho sereno que o tornava, aos olhos dos outros, quase um “raio de luz”, expressão que ele, modesto, aceitava com o ar de quem já se sente meio canonizado.

Mas, tal como no romance de Camilo, a ascensão terminou em queda. Aquele que pregava a humildade revelou servir-se dos irmãos como degraus para as suas ambições. Invocando os saberes acumulados, foi transformando a confiança em servidão e a fraternidade em instrumento de domínio. E bastou-lhe um trono simbólico, um título sonante e uma assembleia obediente para que o anjo acabasse por revelar a sua verdadeira natureza.

O nosso iniciado, tão hábil em citar Luz, começou a confundir iluminação com foco cénico, e verdade com eco. Pregava humildade em voz alta porque, sabia, a humildade precisa de boa acústica; e enquanto os irmãos aplaudiam, ele agradecia com aquele sorriso piedoso de quem já se imagina busto.

Não houve relâmpago na sua ruína, apenas o lento desmoronar da confiança dos iguais, ao verem apodrecer um carácter que julgavam incorruptível. Quando o véu caiu (porque todo o véu acaba por cair), o que restou foi um individuo perplexo diante do espelho, perguntando-se por que motivo a sua Luz se apagara. Ora, não se apagara, apenas fora absorvida pelo brilho do próprio ego, esse sol interior que derrete tudo. E os confrades, reflectindo, concluíram: - Há os que sobem para servir, e há aqueles que se servem para subir.

Se Camilo o narrasse, tê-lo-ia feito com uma gargalhada amarga, escrevendo na margem: “Eis mais um anjo que quis voar sobre um altar e acabou pendurado num triângulo.” E, para remate da história, direi, com licença dos santos e dos anjos, que o mundo não carece de mais iluminados, mas de quem saiba acender a Luz sem se deslumbrar com o próprio reflexo.

O nosso Anjo Iniciado caiu, sim, mas caiu com elegância, o que é uma forma de continuar de pé na memória dos ingénuos. E quando alguém o vir ainda a discursar sobre virtude, não o interrompa, deixai-o brilhar; a natureza sempre quis ter um exemplo vivo de como o orgulho é um vício que, mesmo desmascarado, continua a pedir palco e luz de ribalta.




Outras produções do autor

EXERCÍCIOS DE ESCRITA E FICÇÃO

CLICAR NA IMAGEM ABAIXO PARA DESCARREGAR


https://yucuvn.s.cld.pt


PARA DESCARREGAR
CLICAR NA IMAGEM  ABAIXO


Toca e Foge

 


Outra memória da juventude suscitada por esta pintura (The Runaway Knock, de S. A. Forbes, 1888).

Havia, outrora, um jogo pueril, quase ritual, que fazia parte do calendário secreto da infância: bater à porta do vizinho e fugir, antes que a aldraba concluísse o seu eco metálico. Era a inocência travestida de travessura, uma maneira ingénua de experimentar a adrenalina do proibido.

O vizinho, ou a vizinha, surgia à soleira com o sobrolho franzido, olhando o vazio do pátio, a sombra do beco ou o alinhamento das portadas. Nada. Apenas o silêncio cúmplice da rua. A intriga ficava-lhe gravada no rosto, e era esse o triunfo da pequena malícia, provocar o espanto, a dúvida, a suspeita de que o mundo guardava mistérios insondáveis mesmo à porta de casa.

Nos bairros mais antigos, de ruas estreitas e calçadas polidas pelo tempo, a corrida fazia-se em velocidade, com o coração a galopar tanto como os pés. Os postigos fechados pareciam observar em segredo, e cada esquina era refúgio possível. Já nos arrabaldes modernos, com prédios altos e campainhas eléctricas, o jogo adquiria outra música: um zumbido breve, seguido da debandada pelos corredores anónimos, onde o eco dos passos se confundia com o rumor distante do trânsito.

A cultura de cada rua temperava a brincadeira. Havia vizinhas de avental que, desconfiadas, juravam a pés juntos que era “a canalha do rés-do-chão”, e havia velhos benevolentes que abriam a porta sorrindo, fingindo ignorar o ardil, como se participassem também no enredo. Noutros lugares, mais sisudos, a repetição da façanha arriscava represálias, sermões, puxões de orelhas, até o rosnar irritado “um dia será a tua vez”.

Mas, no fundo, essa vetusta traquinice era a pedagogia secreta da infância. Aprendia-se a medir o tempo exacto entre o toque e a fuga, a calcular distâncias, a escutar o som da fechadura como quem aguarda o tiro de partida de uma corrida. Aprendia-se, sobretudo, a saborear o poder da invisibilidade, como se o mundo inteiro fosse palco e nós actores disfarçados.

Hoje, raramente se vê tal arte, talvez porque as ruas mudaram, ou porque os vizinhos perderam a paciência, ou porque as crianças já não treinam o riso nas pequenas sombras do perigo. Ainda assim, quem o viveu guarda a memória desse instante breve em que a porta se abria para o nada, e o nada era, afinal, um festim secreto de gargalhadas ao virar da esquina.


O ouro antigo e o eco do mar

 



Calcorreando sítios de imagens na Internet (em busca de navios e velas), encontrei esta Natureza Morta, pintura de meados dos anos 50, do húngaro Toth Gabor. A página Electrónica onde encontrei a imagem é estrangeira e dos muitos comentários que possui nenhum referenciava a garrafa de vinho portuguesa.

Fiquei escorado na imagem, recebendo o sopro dos tempos idos que dela emana. Não a vejo como uma natureza morta, mas como uma confidência, feita em silêncio, a quem se dispõe a escutar.

No centro, repousa uma garrafa de vinho tinto Ouro Velho, da casa Casalinho (acho eu que se disso se trata), daquelas que guardam no nome a promessa de calor e de história. Ao lado, um copo onde o líquido rubi reflecte a luz oblíqua, como se o próprio sol de fim de tarde se tivesse dissolvido no vinho.

À sua frente, o copo parece hesitar entre convidar ao gesto ou preservar intacto o instante. A luz, suave, derrama-se sobre os demais elementos. O cacho de uvas que repousa com a serenidade das coisas que já cumpriram o seu destino. As folhas, rendidas ao amarelecer do tempo, sugerem guardar o cheiro da terra molhada; há, nelas, uma beleza discreta, feita de finitude, como um suspiro telúrico que vem do campo.

Finalmente, o búzio, esse viajante do mar, que desarma qualquer lógica. Está ali, junto ao vinho e às uvas, como um convidado improvável. Não sei se o pintor o colocou ali por capricho ou para fazer alguma ligação com o campo e o vinho, mas sei que é impossível não o ver como uma âncora lançada ao mar da memória. É grande, com as suas espirais de calcário gasto. Basta imaginá-lo junto ao ouvido e logo se ouve um mar que não está na tela, o rumor distante das marés de infância, das tardes lentas à beira da água, dos verões que nunca mais acabavam.

Esta composição não é inocente. Entre o vinho, as uvas e o búzio, constrói-se um diálogo secreto entre a terra, o tempo e o mar, entrelaçados como fios de um mesmo tear. O Ouro Velho é o sabor que envelhece bem, mesmo quando já não temos quem o partilhe. As uvas são o gesto generoso da natureza, sempre cíclica, mesmo que nós não o sejamos. E o búzio é o eco persistente de tudo o que foi mas não se perdeu.

Olho a tela e sinto que nela há uma despedida, resignada, como quem sabe que a vida é feita de breves abundâncias e longas ausências. E, no entanto, há também a promessa de que, enquanto houver memória, o vinho terá sempre o seu rubi, as uvas o seu brilho, e o mar o seu murmúrio.

Aljubarrota — Ou Como Nos Fizeram Cronista (porque ainda não havia máquinas fotográficas)

 


14 de Agosto de 1385. Lá estávamos, modesto escriba e cronista de nome pouco conhecido, incumbidos da nobre e ingrata tarefa de registar para a posteridade os feitos de uma batalha que prometia ser mais barulhenta do que os músicos de rua nas cidades do Algarve. As autoridades haviam-nos escolhido com base num critério rigorosíssimo: erámos o único que sabia escrever sem manchar o pergaminho com molho à espanhola. Também ajudou o facto de a máquina fotográfica ainda estar a seis séculos de ser inventada e, sejamos francos, ninguém queria um retratista a óleo em campo de batalha. Os cavaleiros não aguentam tanto tempo em pose sem matar alguém.

 

A planície de Aljubarrota fervia, não só de sol, mas de nervos, e exalava dela um cheirinho a guerra e a intenso odor corporal proveniente do interior das armaduras de lata. D. João, Mestre de Avis e recém-proclamado Rei de Portugal, de semblante sério, ajeitava o elmo com a paciência de quem sabe que dali a instantes vai ter de provar que é mais do que um bastardo; é um bastardo com jeito para espadeirar franceses, espanhóis e outros mais.

 

Do outro lado, D. João de Castela bufava de confiança. Trazia consigo um exército que parecia mais uma convenção medieval: cavaleiros, alabardeiros, clérigos, alguns pasteleiros, três estandartes e uns franceses de cabelos armados que juravam que aquilo se resolvia com um empurrão e um bom vinho da Borgonha.

 

Ao lado do nosso João português, o Condestável Nuno Álvares Pereira fazia as últimas afinações na táctica de combate, traçada com a minúcia de quem monta castelos de areia com esquadro e compasso. O plano era simples: escolher bem o terreno, escavar trincheiras, fincar estacas, polir todos os calhaus e fazer com que os castelhanos, sedentos de glória, tropeçassem e escorregassem em tudo aquilo como turistas em calçada portuguesa.

 

“Mestre, não seria melhor esperar por reforços? Perguntou um escudeiro nervoso, olhando o exército adversário, que parecia mais uma procissão com armaduras reluzentes.”

“Reforços? Meu rapaz, nós temos os besteiros do Porto e de Lisboa, homens de vista certeira, dedo nervoso e uma paciência limitada para nobres arrogantes. E além disso temos os turistas ingleses recém-chegados do Algarve, aqueles que ali vez com as sobrancelhas levantadas e escaldões no rosto.”

 

Depois de escutado este diálogo entre o Condestável e o escudeiro Azeite, instalámo-nos num modesto outeiro, com bom ângulo para ver tudo e, mais importante, bastante afastados para evitar levar com uma flecha perdida. Ali, com pena e tinteiro, e um odre de vinho que fomos dizendo ser “água para diluir a tinta”, preparámo-nos para registar o que viria a ser o dia mais atribulado desde que nos pediram para redigir o rol de ofensas do arcebispo de Braga.

 

A batalha começou ao meio-dia e durou menos do que uma missa breve. Os castelhanos, confiantes, lançaram-se como se fossem conquistar o Eldorado colombiano, mas acabaram enterrados até aos joelhos nas armadilhas lusas. Os franceses, elegantemente vestidos, diga-se, caíram em fila como quem tropeça na própria etiqueta.

 

Mas a grande surpresa para os invasores veio sob a forma de um contingente disciplinado de homens de tez pálida, estranhamente queimada, e pronúncia exótica: Sir John Holland, que vinha com recomendação directa do primo Ricardo II de Inglaterra (um rei com tempo livre e pouca utilidade bélica), desceu da mula com o ar de quem já tinha lido o guião. Alinhou os seus homens numa encosta suave, preparou os arcos longos, verdadeiras máquinas de distribuir estropícios, e gritou com aquele charme britânico: “Loose!”

 

Os archeiros ingleses, alinhados com a precisão de quem joga xadrez, soltaram as setas, e junto com elas o caos e a desordem nas hostes inimigas. As flechas iam em enxames tão cerrados que os cavaleiros de Castela pensaram estar sob um ataque de abelhas de ferro. Um cavalo de nobre francês (chamava-se Philibert, o cavalo, não o nobre), recusou-se terminantemente a avançar. Sentou-se, ali mesmo. Um historiador tentaria mais tarde explicar isso como "manobra defensiva equina voluntária". Foi, na realidade, puro bom senso.

 

Já os besteiros portuguesescom as suas bestas de madeira bem oleada e músculos que fariam corar qualquer ginasta moderno, tratavam de tudo o que se mexia: cavaleiros, estandartes, copeiros distraídos; ninguém escapava ao virote luso. Um besteiro do Porto acertou num francês em pleno recuo, a 300 passos, enquanto comia uma francesinha. A crónica oficial omitiu a francesinha, mas nós estávamos lá e testemunhamos a verdade. Um outro, juramos por Santiago, acertou num francês que mal tinha saído da tenda. O pobre homem ainda levava o guardanapo ao pescoço. Registámos isso com nota: “Morreu em elegante despreparo.”

 

Mas nada, absolutamente nada, preparou os cronistas presentes para o momento da Padeira de Aljubarrota. Uma mulher com mais músculo que um cavalo de guerra, armou-se da pá e transformou a cozinha num campo de justiça sumária. A coisa ocorreu assim: Brites de Almeida, padeira de profissão e mulher de maus fígados, encontrou sete castelhanos escondidos na padaria, provavelmente atraídos pelo cheiro a broa. Sem cerimónia, agarrou na pá do forno e aplicou-lhes justiça popular com tanta força que as farinhas do dia seguinte vinham com sabor a hermano. Foi o único caso na História em que o pão foi simultaneamente arma, testemunha e memorial.

 

Mas nem só a exímios archeiros e enérgicas padeiras se deveu a vitória, devemos referir que, entre lanças afiadas e mandíbulas cerradas, se destacou uma curiosa falange de combatentes: a notável Ala dos Namorados. Não se tratava, como o nome poderia sugerir, de um batalhão de poetas suspirantes nem de trovadores de olhar lânguido. Nada disso. Eram moços de vinte primaveras mal contadas, que, além de espada e escudo, carregavam nos bolsos retratinhos bordados das suas donzelas; e no coração uma determinação que só os amores expectantes costumam incitar.

 

Lutavam como possuídos, não por ardor patriótico — que o tinham, sim senhor — mas pelo receio de que, caso caísse o reino nas mãos dos castelhanos, as suas Ineses e Constanças fossem obrigadas a dançar ao som de fandangos alheios. E isso, na alma de um rapaz enamorado, é mais doloroso que uma espadeirada entre as costelas.

 

Em dado momento da refrega, ao ouvir um arauto castelhano gritar “Castilla!”, um dos moços retorquiu de lança erguida: “Castelo levas tu no toutiço”. E aí foi o arauto à terra, vencido como tantos outros pelos rapazes da Ala dos Namorados, firmes como estátuas de pedra… e ciúmes. Por mais que os livros de história descrevam a heroicidade bélica, o certo é que Portugal também se fez com amores inflamados, punhos cerrados e um ou outro bilhetinho perfumado escondido sob a cota de malha.

 

E se a Ala dos Namorados pelejou por ciúmes e promessas de beijos ao luar, a cavalaria portuguesa, essa, entrou em campo com o porte digno de quem passa os dias a treinar com lança e os serões a endividar-se, na jogatana. Montados em corcéis que sabiam mais de guerra do que muitos fidalgotes sabiam de cartas e contas, os cavaleiros portugueses apresentaram-se à lida vestidos de ferro, envoltos em penachos, e com aquele olhar solene, mesmérico, que apenas o desconforto de uma armadura completa consegue proporcionar. Ao contrário de certas cavalarias estrangeiras que avançam em campo aberto como pavões em procissão, os nossos cavaleiros eram dados ao improviso: entravam onde podiam, saíam onde calhava e se encontravam um castelhano perdido, davam-lhe a conhecer a robustez do aço português (na verdade, importado da Escócia) com toda a franqueza da ocasião.

 

D. Nuno Álvares Pereira, esse asceta com punho de ferro, gritou à sua hoste montada: “Quem cair, que caia com dignidade. E quem ficar, que faça barulho, que o estrondo assusta mais do que a razão.” Resultado: o inimigo, baralhado entre estratégia e bravura, recuou a rezar e a galopar em simultâneo, um feito digno de menção em qualquer crónica.

 

E assim foi que a cavalaria portuguesa, mais dada a rompantes do que a coreografias tácticas se tornou em peça chave da vitória deixando no campo não só cascos partidos e inimigos vencidos, mas também um significativo odor a bosta de cavalos que perduraria por dias nas redondezas de Aljubarrota.

 

Mas, enquanto os fidalgos suavam dentro das armaduras e os moços da Ala dos Namorados riscavam o destino a golpes de paixão e aço, havia também um outro exército presente em Aljubarrota, este desarmado, mas não menos ruidoso: o povo. Sim, o povo. Essa multidão de olhares aguçados, língua afiada e disposição para o escândalo. Gente vinda das aldeias próximas, das hortas ao redor, das tabernas de Leiria, dos fornos de Alcobaça e até de um SPA das Caldas da Rainha que, ao pressentir que algo de grandioso se cozinhava na planície, acorreu como quem vai a romaria, mas trocando os santos por estandartes e os círios por arrobas de curiosidade. Postaram-se em colinas, sobre muros, pendurados em sobreiros e até em cima de burros. As mulheres levavam cestas com pão e azeitonas, os homens carregavam odre ao ombro e opinião pronta.

 

Quando a poeira se ergueu e os primeiros gritos se ouviram, houve quem fizesse apostas sobre o desfecho da luta. E quando a sorte se inclinou para o lado português, a multidão, num êxtase tão nacional quanto irreverente, soltou vivas, saltou das pedras, sacudiu as saias e correu, não para ajudar os feridos, que isso é ofício de frades, mas para recolher lembranças da peleja: uma lança partida, um elmo sem dono, e até, vimos bem, um dente castelhano ainda cravado na mandíbula. Mais tarde, nos serões de Inverno, em redor do lume, essas gentes contariam, cada qual ao seu modo, que estiveram “lá”, que viram tudo, que foram parte da glória. E assim o povo, que não empunhou espada, cravou na História o seu olhar atento, a sua gargalhada matreira e a inestimável arte de transformar cada batalha em narrativa pessoal e agigantada.

 

Finalmente, quando a poeira assentou e os estandartes inimigos jaziam no chão (um deles a servir de toalha de piquenique a dois archeiros que decidiram almoçar cedo), D. João de Castela viu o seu exército transformado num bando derrotado e pensou que talvez a ideia de anexar Portugal fosse um pouco... precipitada.

 

Na outra banda, D. João I olhou para o Condestável Nuno Álvares Pereira: “Ganhámos, Nuno. E com estilo.”

“Mestre, com estilo inglês, ímpeto português e um pão mais duro que o orgulho de Castela.”

Sir John Holland, limpando uma mancha de barro da armadura, acenou com cortesia: “Lovely war, gentlemen. Call me when there’s another one”.

 

Então D. João chamou-me. Com as mãos ainda sujas de pó e glória, disse-me: “Cronista faz o favor de escrever tudo. Mas com graça, que os séculos hão-de lembrar-se disto melhor com um sorriso. E não te esqueças dos ingleses. Foram úteis.” “Sim, meu senhor.” Respondi, limpando discretamente uma nódoa de vinho do pergaminho. “Mas se Vossa Alteza me permite, ponho também a padeira. Ela tem mais carisma que meio exército.”

 

E assim nos tornámos, sem saber, em improvável fotógrafo do século xiv, com pena em vez de lente e ironia em vez de rolo. Não sei se o fizemos com rigor, mas garantimos: ninguém saiu da batalha sem ficar na História. Nem nós. Afinal, alguém tinha de contar como tudo aconteceu antes que o primeiro selfie com armadura chegasse ao mundo.

 

O povo celebrou, as badaladas tocaram e assim se fez História: com cavalos, flechas, pão e uma pá homicida. Aljubarrota não foi apenas uma batalha, foi um festival de criatividade bélica com convidados anglo-saxónicos e um cheirinho a broa de milho no ar. Assim o vimos.